Dr Fernando Barata (Centro Hospitalar Coimbra)
Os Pulmões
Os dois pulmões (direito e esquerdo), são parte do sistema respiratório. Têm uma estrutura esponjosa, mole e flexível que se comprime e dilata. Ocupam a maior parte do tórax, estando separados pelo mediastino, uma área que contém o coração, os grandes vasos do corpo (ex. aorta, veias cavas, vasos pulmonares) a traqueia, o esófago e muitos nódulos linfáticos. Cada pulmão apresenta a forma de semicone convexo para fora, cuja base assenta no diafragma e o vértice arredondado está próximo da clavícula. O pulmão direito tem três lobos e é um pouco maior que o pulmão esquerdo apenas com dois.
Quando respiramos, o ar entra pelo nariz e boca. Atravessa a faringe, a laringe (a caixa da voz), traqueia e entra nos pulmões por tubos chamados brônquios, um para a direita e outro para a esquerda. Já no pulmão cada brônquio divide-se em dois de calibre progressivamente mais fino até pequenos tubos chamados bronquíolos que se abrem em micro-sacos de nome alvéolos.
Nos alvéolos pulmonares, o oxigénio do ar inspirado, imprescindível para todas as nossas células, passa para a circulação enquanto o dióxido de carbono, tóxico para as nossas células, sai da circulação para o ar que expiramos.
O que é o cancro?
Como todos os órgãos do corpo, os pulmões são feitos de muitos tipos de células. Normalmente, essas células dividem-se para produzir novas células quando o corpo necessita delas. Este processo normal, discreto, mas ordenado e controlado mantêm-nos saudáveis. O cancro surge quando uma ou mais células se descontrolam, persistem desordenadas e se dividem de forma repetida descoordenadamente. Esta multiplicação celular anormal, este crescimento não regulado e anárquico origina o cancro. Continuando a multiplicar-se de forma desordenada, este bloco de células pode depois invadir e alterar outros órgãos. O cancro estende-se ou metastiza para outras partes do corpo onde novos tumores se desenvolvem.
No cancro do pulmão, a proliferação anormal é inicialmente pulmonar. Com o tempo algumas dessas células podem chegar aos nódulos linfáticos, enquanto outras, através do sangue se espalham para outros órgãos nomeadamente o fígado, os ossos e o cérebro.
O que causa o cancro do pulmão?
Cerca de 85% do cancro do pulmão no homem e 65% do cancro do pulmão na mulher são causados pelo fumo do tabaco. Só na segunda metade do século XX, 60 milhões de mortes à escala mundial foram causadas pelo tabaco. Aproximadamente metade dos fumadores regulares morrerão na sequência desse consumo. No tabaco há muitas substâncias carcinogénicas, isto é, substâncias capazes de alterar as células, transformando-as em células cancerosas. Quanto mais se fuma, maior o risco de cancro.
Se não é fumador, não experimente o tabaco. A maioria daqueles que experimentam tornam-se fumadores regulares. Se é fumador, existem muitas vantagens em deixar de fumar, mesmo em pessoas que fumaram durante anos. Nunca é tarde para parar de fumar. Mesmo em doentes com cancro do pulmão, parar de fumar diminui o risco de novos cancros.
Não fume na presença de outras pessoas. Cientistas demonstraram que não-fumadores que vivem ou trabalham com fumadores têm um risco acrescido de cancro do pulmão.
Outras causas de cancro do pulmão passam pela exposição ao amianto, em particular em fumadores ou pela exposição a substâncias radioactivas quer em minas quer noutros ambientes com exposição a essas substâncias.
Tipos de cancro do pulmão?
Quase todos os cancros do pulmão são carcinomas. São habitualmente divididos em dois tipos: a) carcinoma pulmonar não pequenas células e b) carcinoma pulmonar de pequenas células.
Estes tipos crescem, estendem-se e tratam-se de forma diferente.
O carcinoma pulmonar não pequenas células, é o mais comum. Divide-se ainda em três tipos, de acordo com o tipo de células.
- Carcinoma de células escamosas ou epidermóide, o mais comum no homem. Inicia-se nos bronquios e estende-se mais lentamente.
- Adenocarcinoma, o mais comum na mulher e nas pessoas não fumadoras. Habitualmente inicia-se nos bordos exteriores do pulmão.
- Carcinomas de grandes células, mais habitual no homem e também mais localizado à periferia do pulmão.
- Carcinoma pulmonar de pequenas células, muito relacionado com o tabaco, é um tumor de crescimento muito rápido e uma rápida extensão a outros órgãos.
Sintomas
Geralmente são alguns sintomas que levam o doente a procurar o seu médico.
A tosse é o mais comum. Ocorre quando o tumor irrita os bronquios e bloqueia a passagem do ar. Muitas vezes, o indivíduo com ¿tosse do fumador¿ modifica a sua tosse tornando-a irritativa e persistente. A hemorragia respiratória (hemoptise) costuma alarmar o doente e levá-lo rapidamente ao seu médico. A dor torácica pode ser tipo pontada mas outras vezes é surda, prolongada e não resolve com analgésicos comuns. Outros sintomas são a dificuldade respiratória, a pieira, episódios repetidos de pneumonia ou bronquite, rouquidão. Como todos os cancros, o do pulmão pode causar fadiga, perda de apetite e emagrecimento. Outras vezes, pode causar sintomas que parecem não relacionados com os pulmões como dificuldade em engolir, dor no ombro e braço, inchaço da face e pescoço. Se o cancro já se estendeu a outros órgãos do corpo pode causar dores de cabeça, alterações do comportamento, dores ósseas ou dores abdominais.
Atenção: Estes são alguns sintomas de alerta a valorizar em especial se surgem num indivíduo fumador. Mas, nenhum destes sintomas é seguro de cancro do pulmão. Só o seu médico o pode esclarecer se eles são causados por um cancro ou por outro problema.
Diagnóstico
Para encontrar a causa destes sintomas, o seu médico interroga-o sobre a sua história pessoal e familiar, sobre os seus hábitos tabágicos e profissionais, sobre a evolução cronológica dos seus sintomas. Após o exame físico, pede-lhe um RX do Tórax e outros exames que julga necessários. O mais comum é a TAC (tomografia axial computorizada) torácica que permite com grande detalhe observar os pulmões e outros órgãos vizinhos torácicos.
Embora suspeitando, a única forma de saber se tem cancro ou não, é obter-se algumas células da zona suspeita para observação microscópica pelo patologista. Então faz uma biópsia. Habitualmente escolhe-se uma destas técnicas:
- Broncofibroscopia que permite ao médico ver a sua traqueia e bronquios e em qualquer área suspeita, aspirar secreções para estudo das células e realizar biópsias. A anestesia local e os modernos aparelhos reduzem o desconforto e engasgamento provocado pela passagem de um tubo fino flexível pelo nariz, faringe e laringe.
- Biópsia aspirativa transtorácica Como o nome diz, com uma agulha fina, com controle da TAC torácica, aspiramos e biopsamos uma área suspeita não acessível ao broncofibroscopio.
- Exame do líquido pleural As pleuras são sacos humidificados que rodeiam os pulmões e que quando com líquido secundário ao cancro, este pode ser retirado por toracocentese e analisado.
- Biópsia aspirativa de gânglios aumentados de volume
- Algumas vezes pode ser necessário uma biópsia cirúrgica, realizada com anestesia geral em sala própria para este acto
- Pode ainda biopsar-se outras áreas do corpo suspeitas de terem lesões cancerosas.
-
Estadiamento
Após o diagnóstico de cancro do pulmão, o seu médico necessita agora de avaliá-lo para melhor planificar a terapêutica e saber do prognóstico da doença. Estadiamento é uma avaliação cuidadosa global do doente com a finalidade de conhecer:
1) da extensão da doença - se o cancro está localizado, se já se estendeu regionalmente ( por ex. à parede torácica, mediastino ou pleura) ou mesmo para outras partes do corpo (por ex. fígado, ossos, cérebro)
2) da capacidade do doente em tolerar determinada terapêutica preconizada.
Nesta avaliação o seu médico vai pedir:
a) uma TAC torácica para melhor definir no tumor o seu tamanho, os limites, as relações com outros órgãos ou ainda para melhor definir os ganglios linfáticos, a sua localização e tamanho
b) se suspeitar de lesões no abdómen uma Ecografia abdominal ou uma TAC abdominal
c) se suspeitar de lesões ósseas, um cintigrama ósseo
d) se suspeitar de lesões cerebrais uma TAC cerebral
e) um estudo funcional respiratório para saber da sua capacidade respiratória
f) um Electrocardiograma ou Ecocardiograma para saber da capacidade cardíaca e tolerância às medidas terapêuticas propostas.
g) Ocasionalmente outros exames julgados necessários.
Tratamento
Sabendo agora o médico, do tipo de cancro, sua localização e extensão, do estado geral e capacidade cardio-respiratória decidirá pela melhor terapêutica caso a caso. Muitos doentes querem justificadamente saber tudo sobre a sua doença, os tratamentos, necessidade de hospitalização, os efeitos secundários dos tratamentos e previsível evolução. O seu médico é a pessoa mais habilitada a responder-lhe a estas e outras questões. Nem todas necessitam de uma resposta imediata, haverá muitas oportunidades de conversarem, se desejarem, sobre a doença.
Tipos de tratamento
Cirurgia, Radioterapia e Quimioterapia são os tipos de tratamentos mais comuns usados para o cancro do pulmão. Cirurgia é realizada quando é provável que todo o tumor possa ser retirado. Com a radioterapia e a quimioterapia procuramos matar as células cancerosas evitando que elas se dividam e o tumor continue a crescer. Muitas vezes utilizamos uma combinação de tratamentos.
São três os tipos de Cirurgia mais comuns no cancro do pulmão. A escolha está dependente do tamanho do tumor, sua localização, extensão e estado geral do doente. Segmentectomia é uma operação destinada a retirar um pequeno segmento afectado de um lobo pulmonar. Lobectomia é a intervenção cirúrgica em que se retira um lobo pulmonar. Pneumectomia é a remoção de todo um pulmão.
A Radioterapia é um tratamento local com radiação emitida por uma máquina sobre a região afectada. Ocupa uns minutos diários, durante 5 dias por semana, por várias semanas e é indolor.
Quimioterapia é um tratamento sistémico, isto é, os medicamentos injectados no sangue ou tomadas oralmente, atingem potencialmente todas as partes do corpo incluindo as áreas afectadas. É habitualmente administrada em ciclos ¿ período de tratamento seguido de um período de recuperação. A administração é feita, no hospital, durante umas horas de um dia ou dias seguidos.
Efeitos secundários do tratamento
Limitar o efeito do tratamento ao tumor, se bem que fosse o desejável é impossível. Os tratamentos prejudicam também células e áreas normais e causam efeitos secundários indesejáveis. Estes dependem do tipo e extensão do tratamento e variam de doente para doente. O seu médico pode ajudar, por vezes com medidas simples, a ultrapassar estes efeitos aborrecidos.
Depois de uma cirurgia
torácica, são necessárias semanas a meses até que o doente recupere a força e energia anterior. Logo no pós-operatório imediato o doente é ajudado a tossir e a ultrapassar as dores. Porque os músculos do lado afectado estão mais debilitados é ensinado a reforça-los, a respirar profundamente, a adquirir atitudes posicionais correctas. Mais tarde pode sentir alguma limitação nas suas actividades e cansaço já que têm agora menos tecido pulmonar. Saiba que com o tempo os pulmões restantes expandem-se e procuram desempenhar todas as anteriores funções.
Durante a radioterapia é comum a pele da área tratada tornar-se seca, avermelhada e dar comichão. Mais tarde fica bronzeada. Os doentes devem evitar nestas áreas, exposições directas ao sol, roupas que irritem ( a roupa deverá ser preferencialmente de algodão) e o uso de pomadas e cremes não recomendados pelo seu médico. Muitas vezes, pouco tempo depois do tratamento, os doentes sentem a garganta seca, rugosa, dorida e dificuldade em engolir. Pode ser ultrapassado bebendo muitos líquidos, pouco quentes e ingerindo alimentos não condimentados, passados ou mais moídos.
Com a quimioterapia, os efeitos secundários são dependentes de pessoa para pessoa e consoante o medicamento usado. As células normais mais lesadas são as que se dividem mais rapidamente, isto é: a) as células normais do sangue e assim o doente está mais sujeito a infecções, a sangramento fácil e a menos força e mais fadiga; b) as células das raízes dos cabelos e assim surge a queda do cabelo; c) as células do aparelho digestivo e assim o doente refere enjoos, vómitos ou diarreias. Geralmente estes efeitos secundários desaparecem gradualmente durante o período de recuperação ou com o fim da quimioterapia.
Que deve comer o doente com cancro?
Comer bem significa ingerir bastantes calorias e proteínas que evitem a perda de peso. Aqueles doentes que comem bem durante o tratamento toleram-no melhor, com menos efeitos secundários e mais força e energia.
Há doentes que não têm apetite, outros deixam de sentir o gosto dos alimentos, outros sentem-se cansados para comer e ainda outros sentem-se persistentemente enjoados, com vómitos ou ¿feridas¿ na boca. Procure conversar com o seu médico sobre a forma de ultrapassar estas questões.
Deve conviver o doente com cancro?
Sim. A doença cancerosa não é transmissível como uma gripe. É bom que o doente, mantenha dentro das limitações dos tratamentos, a sua actividade normal, familiar e social. Conviver e partilhar é importante.
Não esqueçamos que cada doente é diferente de outro doente que conhecemos. Também a metodologia diagnóstica e o tratamento pode ser diferente de um vizinho ou amigo que conhece. Não esqueça que sempre que tenha dúvidas, o seu médico o poderá esclarecer sobre a sua doença e as melhores opções para a ultrapassar.
Futuro?
Todos os dias surgem pequenos avanços no diagnóstico e tratamento desta doença. Investigações recentes têm sublinhado a importância dos factores genéticos e da especial sensibilidade de alguns doentes ao tabaco; novos métodos de diagnóstico estão sendo testados; novos medicamentos estão sendo avaliados quer a nível do tratamento efectivo, quer a nível da redução dos efeitos secundários com melhoria da qualidade de vida.
Quanto mais precocemente o cancro for detectado, maior sucesso terá o tratamento, maior será a taxa de cura. Estudos de rastreio, procurando detectar um cancro do pulmão num indíviduo sem sintomas, têm sido desapontadores.
Se conhece alguém com mais de 40 anos, fumador ou ex-fumador recente de 1 maço/dia, durante mais de 20 anos, com queixas de tosse persistente, cansaço fácil, pneumonias de repetição, expectoração com sangue ou modificação das queixas habituais de bronquite crónica, aconselhe-o a procurar o seu médico de família ou o pneumologista da sua área.